Sexta-feira, Março 19, 2010

Verde

Ela não conseguia dormir. Já estava com saudades do lugar que estava prestes a deixar. Quanto mais ela se forçava a ficar quieta, mais o cheiro do quarto ficava impregnado em suas narinas. Aquele cheiro viria a se tornar o mais novo integrante de sua memória olfativa, na categoria "os que eu gostaria de ter guardados pra sempre".

Suas horas ali estavam se esgotando, horas em que ela poderia estar desfrutando da presença da pessoa querida que dormia num outro quarto do mesmo imóvel. Será que dormia? E foi com esse pensamento que ela teve uma sensação conhecida, porém rara, de solidão quase insuportável. Ela tinha impressão de que a qualquer momento algo poderia acontecer, sem que ninguém pudesse ampará-la.

Preciso de alguém comigo, agora. Ela cansou de se revirar na cama, que ironicamente era a mais confortável em que já estivera, e sentou, apoiando a cabeça nas mãos. Aquilo não fazia o menor sentido, mas já se apoderava quase totalmente dela. Vou buscar companhia.

Levantou. No meio do caminho para o outro quarto, pensou bem. Os outros trabalhavam no dia seguinte, seria desagradável incomodá-los. Deu uma volta na sala vazia, espiou a rua deserta, tomou um copo d'água. Passou em frente ao quarto, e voltou. A cama a convidava a voltar. Sem enxergar alternativa, ela se deitou novamente e, após se imaginar no abraço da pessoa querida, caiu no sono.

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